Especial

Jornalista Eliane Brum escreve carta-coluna à menina Maria, filha do fotógrafo Lilo Clareto, morto pela covid-19

'Seu pai, como centenas de milhares de brasileiros, morreu porque Jair Bolsonaro e seu Governo executaram um plano de disseminação do novo coronavírus', escreve a repórter no jornal El País

06 de Maio de 2021, 11:05

Da Redação

“Maria, você tem apenas dois anos. Um, dois. E apenas esses dois anos separam seu nascimento da morte do seu pai, Lilo Clareto. Maria, seu pai foi vítima de extermínio”, escreve a jornalista Eliane Brum nessa quarta-feira (5), no jornal El País Brasil, em carta-coluna (“Maria, preciso falar de Bolsonaro, o fazedor de órfãos”) em que se dirige à filha do premiado fotógrafo Lilo Clareto, que morreu em 21 de abril por complicações da covid-19. 

“A causa oficial da certidão de óbito”, continua a repórter e colunista do El País, “é ‘sepse grave, pneumonia associada à ventilação e covid (tardia)’. Mas essa é apenas a verdade parcial sobre a morte do seu pai. Eu olho para você, Maria, e me preparo para a conversa que um dia teremos, aquela em que precisarei contar a você a verdade inteira.”

Lilo Clareto, com Maria, sua filha caçula, em Altamira, no Pará/ Foto/ Acervo pessoal

Em manchete, o prestigiado jornal espanhol repercute as palavras de Eliane Brum: “O homem que governa o Brasil condenou uma geração a crescer e a viver sem pai ou mãe.”

O texto de Brum, emocionado e contundente, refere-se ao cada vez mais transparente extermínio de um povo – o que talvez possa vir a ser comprovado pela CPI da Covid-19 que ora acontece no senado brasileiro. "Não, Maria, não acredite nem por um segundo que era hora de o seu pai morrer. Não era. Seu pai, como centenas de milhares de brasileiros, morreu porque Jair Bolsonaro e seu Governo executaram um plano de disseminação do novo coronavírus para, supostamente, alcançar o que chamam de 'imunidade de rebanho'.”

Brum conheceu Clareto em 2001 em terras indígenas em Roraima/ Foto/ Acervo pessoal

Mineiro da cidade de Passos, o fotógrafo Lilo Clareto, chamado pelo próprio El País de “os olhos do mundo na Amazônia”, contraiu o vírus em março e foi internado em hospital privado, em São Paulo, capital, com a ajuda de amigos. Segundo o jornal, Clareto se notabilizou “por retratar as violações ambientais e humanas que ocorrem na floresta desde a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte”. 

Na ocasião da morte da morte do amigo e parceiro, Eliane Brum escreveu: “Nosso Lilo, meu Lilo, virou árvore, virou rio, virou floresta. Virou luz e virou chuva. Virou vagalume, borboleta amarela na Terra do Meio. Lilo, meu Lilo, você é em mim e em todos que te amaram e que foram amados por ti. Você é em cada janela que abriu no mundo com sua câmera. Lilo, você é”. E continuou, responsabilizando Jair Bolsonaro pelo passamento do fotógrafo. “A causa direta da morte foi covid-19. Mas não foi o vírus que matou Lilo. Foi quem disseminou o vírus pelo Brasil (...). Eu te responsabilizo, Jair Messias Bolsonaro, por assassinato.”"