Cultura

Fellipe Oliveira demonstra com seu 1º. Festival Cantalagoas a força do nosso canto lírico

Cantor e produtor alagoano, que já se apresentou em diversos palcos do mundo, realiza evento on-line durante toda a semana, reunindo talentos veteranos e da nova geração

12 de Maio de 2021, 12:52

Sebage Jorge/ Editor

O Festival Cantalagoas, que está ocorrendo on-line desde a segunda-feira (10), é uma bela demonstração do canto lírico feito por artistas alagoanos. Produzido pelo cantor de ópera Fellipe Oliveira – com larga experiência de palco, especialmente na Itália, onde estudou e morou por oito anos –, o evento acontece diariamente, com oficinas e debates sobre o canto lírico, cuidados com a voz, carreira profissional, produção de concertos e eventos e uma Mostra de Canto Lírico, com participação de cantores alagoanos, acompanhados pelo pianista (técnico de nível superior) da Universidade Federal de Alagoas, Franklin Muniz. A Ufal entrou como parceira (via Escola Técnica de Artes, a ETA), cedendo, também, seu Espaço Cultural na Praça Sinimbu, na região central de Maceió, para a realização da mostra.

Oliveira foi um dos milhares de alagoanos e brasileiros que ganhou prêmios proporcionados pela Lei Emergencial Aldir Blanc, do governo federal, no ano passado. Em Maceió e noutros municípios do Estado, a realização dos editais da Lei Aldir Blanc recebeu o apoio da Secretaria de Estado da Cultura (a Secult). 

O pianista potiguar Franklin Martins acompanha os cantores na mostra

O festival está sendo realizado, desculpem o trocadilho, com maestria, envolvendo a nata dos artistas alagoanos do canto lírico. A mostra de canto em si, no horário das 19h às 20h, em seu primeiro dia nessa terça-feira (11) surpreendeu, com uma produção de altíssima qualidade (áudio, iluminação, cenário) e belos cantores desfilando um repertório de canções de câmara brasileiras e peças universais. A masterclass conduzida pela poderosa soprano carioca Ludmilla Bauerfeldt – que segue até a sexta-feira (14), sempre no horário das 11h ao meio dia –, é outro ponto alto do evento, que reserva para o encerramento às 19h de sexta-feira uma performance de Bauerfeldt ao lado do pianista e maestro sergipano André dos Santos e do próprio baixo-barítono Fellipe Oliveira, numa homenagem à cantora, compositora e professora de canto Fátima de Brito.

Acompanhe a entrevista exclusiva com Fellipe Oliveira.

Uma proeza esse primeiro Festival Alagoano de Canto Lírico, parabéns.

Fellipe Oliveira – Obrigado. Tem sido um período bem produtivo e é gratificante, num momento como esse da pandemia, poder de algum modo levar nossa arte ao grande público.

Joyce Rocha surpreendeu no primeiro dia da Mostra Alagoana de Canto Lírico

É uma oportunidade para o canto lírico em Alagoas (em Maceió?) de estar se apresentando para o mundo.

Oliveira – Sim, uma oportunidade para os cantores do estado mostrarem seus talentos para o mundo via internet, e também terem contato com uma gama vasta de conhecimentos sobre a profissão. Infelizmente, temos apenas Maceió como pólo formador de canto no estado. Uma realidade que esperamos seja modificada nos próximos anos.

Pelo que pudemos constatar na estreia, nosso canto lírico está repleto de cantores e instrumentistas sensíveis e talentosos. Há boas revelações nesse festival, não é?

Oliveira – Sim, foi a primeira vez que o pianista Franklin Muniz, que se transferiu do Rio Grande do Norte para Alagoas no ano passado, se apresentou com os cantores daqui, e essa parceria com certeza vai gerar muitos frutos. Um curso de canto sem pianistas não se sustenta. Além dele, vozes que não tinham ainda tido uma oportunidade como esta se saíram muito bem e os mais experientes puderam voltar a mostrar seus talentos. Estou muito feliz com o resultado do trabalho deles todos.

A soprano Ludmilla Bauerfeldt se apresentará no encerramento do festival, sexta-feira (14)

Os artistas e mestres (e maestros) de fora que você convidou, você os conhece pessoalmente de outros festivais? Como aconteceram os convites, como você definiu o elenco do festival?

Oliveira – De todos os profissionais de fora que estão fazendo parte das nossas mesas, apenas não conhecia um, mas que me foi altamente recomendado. Todos os outros são profissionais reconhecidos nacional e internacionalmente, que estão no mercado lírico – alguns com quem já trabalhei antes e outros  são colegas de profissão que eu admiro e que tinham o perfil para cada uma das atividades propostas pelo nosso festival. Então temos uma encenadora de ópera premiada pela APCA [Associação Paulista de Críticos de Arte] em mais de uma montagem, temos maestros de coro e orquestra que estão no mercado profissional, temos uma diretora artística de um dos maiores teatros de ópera do país, e não poderia ser diferente. Esse primeiro encontro é o ponto de partida. Os próximos têm de ser desse nível de excelência para melhor. O elenco dos cantores da Mostra Alagoana de Canto foi selecionado através de audição por vídeo. Desde janeiro que o processo vem se desenvolvendo.

Oliveira: 'Oportunidade para cantores mostrarem seus talentos'

Quanto custou o festival, de quanto foi o seu prêmio do edital Lei Aldir Blanc, e quantas semanas ou meses foram necessários para produzir o evento?

Oliveira – O prêmio para o festival foi de R$ 60 mil. E vamos gastar praticamente todo o montante no evento – metade do valor foi direcionado a pagar os cachês dos artistas e profissionais envolvidos, porque além dele ter sido pensado para o público assistir de casa, foi pensado para movimentar toda a cadeia produtiva do canto lírico em Alagoas, que ficou totalmente paralisada durante a pandemia. Muitos cantores daqui tinham seu ganha-pão cantando em casamentos, que diminuíram a zero por muitos meses – tiveram uma leve retomada e depois foram paralisados novamente. Além dos cachês, os custos para trazer professores para dar cursos (com passagens, hospedagens, alimentação), contratar equipe de filmagem, iluminação e gravação de áudio, contratar cenários, equipe de produção, equipe de design gráfico e identidade visual e equipe de assessoramento de redes sociais e imprensa também consumiram bastante. E como neste período de pandemia fazer parcerias e conseguir patrocínios foi praticamente impossível, os recursos serão integralmente utilizados. De todas as atividades, apenas 20% dos profissionais envolvidos não são alagoanos. O evento está sendo produzido desde o dia em que o dinheiro do prêmio caiu na conta, ou seja, desde o início de janeiro. Poderíamos ter feito em menos tempo, mas acredito que o resultado não teria sido o mesmo. E essa ação foi a que eu escolhi para executar primeiro dentre os prêmios que ganhei pela Lei Aldir Blanc da Secult – exatamente porque é a que movimenta mais pessoas e eu quis dar prioridade a que esse dinheiro chegasse a esses artistas o mais rápido possível.

O cantor como Evgene Onegin da ópera de Tchaikovski em Edimburgo, Escócia, em 2008

Originalmente o projeto apresentado ao edital da Lei Aldir Blanc previa a continuação da pandemia e a consequente realização on-line?

Oliveira – Sim, desde a sua concepção o festival foi pensado para ser on-line. Ele poderia ter sido realizado de forma totalmente on-line, ou seja, com os artistas fazendo seus vídeos de casa acompanhados de playback, caso a situação impedisse o encontro para a realização das filmagens. Mas felizmente conseguimos fazer no formato híbrido, onde o contato entre os profissionais foi o mínimo necessário. Todos os protocolos de distanciamento e quantidade de pessoas num mesmo ambiente foram rigorosamente respeitados. Com isso, obtivemos um resultado artístico de melhor qualidade de som e imagem que é o que estamos ofertando ao público esta semana.

Você fez adaptações por conta da pandemia?

Oliveira – Felizmente tivemos que fazer poucas adaptações. A maior delas estava relacionada ao local das gravações dos concertos, porque primeiro, praticamente todos os espaços com piano acústico em Maceió estavam fechados. E além de ter o piano, ele teria de estar em bom estado. Isso nos levou a algumas adaptações. Mas fiquei feliz por ter conseguido fazer na sala onde fizemos, que tem uma excelente acústica, como ficou comprovado na qualidade do áudio e do vídeo apresentado nesse primeiro dia da mostra.

 Na montagem paraense da ópera 'Il Matrimônio Segreto', dirigida por Walter Neiva, 2019

Nessa quinta-feira (13) você mediará o debate “Desafios da Formação do Cantor Lírico Brasileiro…”, mas vai também cantar na mostra de canto? Como apresentador, está ótimo, mas vamos ouvir o seu baixo-barítono, não vamos?

Oliveira – Sim, para manter os custos dentro do orçamento me desdobrei em algumas funções: apresentador, mediador de mesa redonda, administrador do estúdio on-line, além de produtor e diretor artístico. Na verdade eu não pretendia cantar no festival, apenas realizá-lo. Mas como na mostra o último dia é uma homenagem também a minha primeira professora de canto, a professora Fátima de Brito, e é o dia do aniversário dela, decidi então cantar também na mostra e reforçar o coro dessa homenagem.

Você recebeu outros prêmios da Lei Aldir Blanc? Em tempos de pandemia, como ficou sua carreira, quais os seus planos?

Oliveira – Sim, recebi mais três prêmios da Secult – lembrando que era possível receber até dois prêmios como pessoa jurídica e dois como pessoa física, o festival foi como pessoa jurídica. Ainda vou gravar um CD de carreira, que estava na fase de composição das músicas – agora já estão todas prontas, vou entrar na fase de ensaios. Devo ir para o estúdio em agosto e produzir um videoclipe. Tem também uma live minha – essa já está com tudo pronto, somente faltando decidir a data. Minha carreira passou de fevereiro de 2020 até agora totalmente paralisada. Mas eu dei muitas aulas, estudei francês e me engajei no movimento de política cultural do município e do estado e isso foi muito importante porque me deu outras competências e me ajudou a desenhar melhor meu futuro. Fiz o Enem e fui aprovado na graduação de Produção Cultural no IFRN [Instituto Federal do Rio Grande do Norte], que vai se dar de forma remota. A carreira tem uma retomada agora em julho. Devo cantar uma ópera na Itália e no segundo semestre, se a situação do Brasil melhorar, mais duas produções aqui no país. Agora só nos resta torcer para que a vacinação avance para que as atividades sejam retomadas com segurança. Enquanto esse dia não chega, vamos de Cantalagoas, que ainda tem mais três dias inteiros de atividades até a sexta-feira, quando teremos o concerto de encerramento com a fantástica soprano Ludmilla Bauerfeldt e o maestro André dos Santos ao piano, às 19h. Lembrando que todas as nossas atividades são inteiramente abertas e gratuitas – toda a população pode acompanhar pelo nosso instagram @festivalcantalagoas a programação e no nosso canal do YouTube [Festival Cantalagoas] e na página do Facebook.