Cultura

Ludmilla Bauerfeldt faz concerto no festival on-line 1º. Cantalagoas

Soprano conta ao Alagoas Boreal que interpretará árias que abriram portas para ela na Europa, mas, também, desfilará peças do carioca Villa-Lobos e do alagoano Hekel Tavares; nesta sexta-feira (14), no canal do evento no YouTube

14 de Maio de 2021, 14:55

Sebage Jorge/ Editor

A soprano carioca Ludmilla Bauerfeldt participa do 1º. Festival Cantalagoas, a convite de Fellipe Oliveira, nosso baixo-barítono produtor e apresentador do evento on-line, de canto lírico, que estreou na segunda-feira (10), encerrando-se nesta sexta (14). Bauerfeldt, que conduziu uma série de masterclasses para cantores jovens e veteranos, durante toda a semana, encerrará o festival, junto com o maestro e pianista sergipano André dos Santos. “Para esse recital trouxe peças que marcaram meu caminho como soprano”, ela conta, revelando que interpretará músicas de câmara que apresentou em festivais na Alemanha. “As árias que me abriram tantas portas na Europa, papéis que definem meu momento. De Purcell a Verdi, passando por Bellini, Donizetti, Puccini, Charpentier e Villa-Lobos.”

Ainda sobre o concerto desta noite, Ludmilla Bauerfeldt diz que “foi realizado com muito carinho, seguindo os protocolos sanitários”. “Adorei o encontro com o maestro André dos Santos Houve uma troca musical muito rica. E cantar nesse momento nos impõe uma ressignificação de valores e uma profundidade expressiva ainda maior. Todos vivemos essa transformação.” 

Cantando Rossini no Teatro alla Scala, em Milão, em 2013

O recital imperdível será transmitido no canal do 1º. Cantalagoas no YouTube, a partir das 19h. Além dos mestres europeus e do carioca Heitor Villa-Lobos (1887-1959), a soprano, que começou no teatro como atriz -- adolescente, cantava heavy metal (“do rock à ópera”, diverte-se Bauerfeldt na entrevista pelo whatsapp) -- interpretará, também, Hekel Tavares, o compositor nascido em Satuba (AL) em 1896 e morto no Rio de Janeiro em 1969. “Será uma singela homenagem”, reconhece a cantora.

Acompanhe o bate-papo com Ludmilla Bauerfeldt.

Você começou na ópera tardiamente – antes, atuou na medicina, fez teatro. Hoje é uma das grandes cantoras líricas brasileiras. Na época do teatro, fez musicais? Em que momento surgiu o canto lírico?

Ludmilla Bauerfeldt – Tive uma passagem pela arquitetura. O Fellipe [Oliveira] é que estudou medicina. Trabalhei com engenharia e desenho técnico antes de começar minha jornada no teatro. Na sequência, me formei como atriz na Escola de Teatro Martins Pena, um espaço de formação carioca, de excelência. Lá, comecei a estudar canto como mais uma disciplina expressiva. Tinha 22 anos quando comecei. Busquei formação técnica no Conservatório Brasileiro de Música, no Rio. O bichinho do canto já havia deixado marcas indeléveis. Sempre estudei canto lírico, nunca atuei em musicais.

Montagem paulista de 'A Italiana em Argel', de Rossini, em 2019; veja o vídeo

Você canta com muita emoção (ou talvez a ópera seja sempre assim, dramática), bem, isso parece indicar que você escolheu o caminho certo.

Bauerfeldt – Acredito que a emoção seja um corpo no qual precisamos trabalhar, usar a nosso favor. É uma carreira em que inteligência emocional é fundamental, seja para construção das personagens seja para lidar com os percalços da carreira. Nosso corpo é nosso instrumento e o levamos sempre conosco.

Quantos anos você tem e quantos anos de carreira como cantora de ópera?

Bauerfeldt – Tenho 37 anos agora, me formei no Scala [Academia do Teatro Scala, em Milão, Itália] com 30 anos. A partir de então estou nesse meio profissionalmente.

'Mater gloriosa', de Mahler, com a Orquestra de SP

Você estudou no Rio, atuou como cantora no Brasil e depois mudou para a Europa… Foi esse o processo?

Bauerfeldt – Estudei no Rio, no CBM [Conservatório Brasileiro de Música], com o professor Sérgio Lavor e cursei bacharelado em canto com a professora Carol McDavit. Na sequência da universidade, fiz a audição para a Accademia Teatro alla Scala,  em Milão, onde passei os três anos seguintes na instituição. Concertos, óperas, audições fizeram parte do processo formativo.

Hoje você mora no Brasil ou vive numa ponte aérea? Foi uma escolha profissional voltar para o Brasil ou tem a ver com este momento de pandemia?

No Grande Prêmio Maria Callas, em Atenas (Grécia), 2014

Bauerfeldt – Morei na Itália por sete anos. Lá desenvolvi o início da minha carreira como solista em teatros e festivais (Alemanha, França, Suíça, Eslovênia, Rússia). Retornei a residir no Brasil há pouco tempo, no intuito de expandir minha atuação por aqui também, e a vida do artista freelancer na Europa foi ficando mais difícil de manter. Já retornei a Munique, onde participei do festival Stars and Rising Stars, apresentando personagens mozartianos (Donna Anna e Fiordiligi). A ponte aérea permaneceu aberta. A pandemia suspendeu nossa mobilidade e os cancelamentos vieram então.

Você cantou Phillip Glass em “Orphée”, montagem carioca dirigida por Felipe Hirsch em 2019. Ele chama atenção por conseguir fazer um cruzamento do clássico com o popular – para não dizer com a música pop... Como você vê essa aproximação da música erudita com a cultura de massa isso tem reflexos no seu trabalho como cantora?

Com o diretor teatral Lauro Gomes na estreia de 'Don Pasquale', 2015 
Bate papo com Fellipe Oliveira no Instagram do Cantalagoas

Bauerfeldt – Fiz Eurydice em “Orphèe” de Philip Glass. Foi um dos meus últimos trabalhos antes da pandemia, no Municipal do Rio de Janeiro. Trabalhar com o Felipe Hirsch foi um sonho realizado desde a época de estudante de teatro. Foi graças a um espetáculo dele, “Pterodátilos” [2011, com Marco Nanini] que reforcei minha opção pelo teatro como caminho possível. Foi um ciclo se reencontrando. Espero trabalhar novamente com ele no futuro. A proposta cênica de romper com o realismo, de propor estéticas muito plásticas e físicas à interpretação, é o tipo de desafio estilístico que me motiva muito. Acho que música não tem fronteiras. Na medida que me expresso como cantora lírica por identificação, valorizo as demais expressões, igualmente.Como foram as masterclasses em Maceió? Que observação você poderia fazer sobre a nossa práxis de canto lírico e sobre os nossos artistas?

Bauerfeldt – As masterclasses foram uma oportunidade para que eu pudesse organizar os meios pelos quais eu trabalho e tentar trazer caminhos, propor mudanças para outro artista em formação. Os cantores com quem trabalhei foram solícitos, abertos as minhas propostas, vozes lindas, expressivas. Acho profundamente importante amar o processo de estudo, porque não acaba nunca. Estamos sempre aprendendo. Trazer representatividade e criar referências foi o ponto alto desse festival.

Você e Fellipe Oliveira já atuaram juntos?

Bauerfeldt – Conheci o Fellipe na final do concurso internacional Vozes do Brasil, em 2010. Éramos seis finalistas. Na ocasião, esse prêmio me possibilitou novos trabalhos com a Osesp [Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), OSB [Orquestra Sinfônica Brasileira] e a audição para o Scala. Acredito nas portas que se abrem em concursos de canto. Bem, esse foi o meu caminho.