Cultura

Formando de jornalismo, Chico Buarque realiza filme sensível sobre a mineração criminosa da Braskem

Indústria de petroquímica destruiu cinco bairros de Maceió, ignorando seus moradores e os negócios que se perpetuaram na região; moradores demonstram seu sofrimento e indignação em pichações sobre os destroços

14 de Junho de 2021, 11:50

Sebage Jorge/ Editor

O TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) do estudante de Comunicação Chico Buarque, “O Sal de nossas Lágrimas”, que você pode conferir no YouTube, é uma obra de impacto, em que se confundem sentimentos de revolta e indignação permeando a dura realidade de moradores (que estão ausentes no filme) de quatro bairros de Maceió destruídos pela mineração criminosa da empresa de petroquímica Braskem. “O TCC chamou a atenção da comunidade acadêmica pela profundidade e delicadeza com que foi tratado um tema tão doloroso para milhares de famílias”, atesta o press-release enviado à Redação, assinado por Lenilda Luna.

Cinco bairros tradicionais de Maceió foram destruídos por uma mineração indiscriminada
Hoje, surpreendentemente, a Braskem é dona de todo um complexo urbano destroçado

Em pouco mais de 19 minutos, “O Sal de nossas Lágrimas” apresenta imagens aéreas e terrestres do afundamento de cinco bairros da capital, que obrigou mais de 50 mil moradores, empresários e comerciantes a saírem de suas casas e a abandonarem os seus negócios. “A partir de 2020, em plena pandemia de covid-19”, destaca o texto da jornalista, lembrando que “a tragédia começou em 2018, quando moradores denunciaram rachaduras nas casas do bairro do Pinheiro”.

Destruição: o filme de Chico Buarque apresenta áreas devastadas, provocando indignação
Pichações refletem sentimentos dos moradores frente a uma ação agressiva e irresponsável

Os destroços das residências, ruas e empresas provocam consternação e, claro, muita indignação. Há muita poesia no filme do jornalista formando Chico Buarque (olha o nome dele!), magnificamente pontuada por uma trilha (não original) de igual força e sensibilidade, assinada pelo músico e compositor alemão (residente na França) Max Ablitzer. Não há diálogos ou depoimentos, mas o vazio deixado pelo crime socioambiental provocado pela selvageria de uma mineração displicente que ignorou a cidade e seus cidadãos, visando apenas o lucro, a qualquer custo. No final, um poema/ testemunho de Caio Corrêa (chamado de “ícone” por Buarque) na interpretação emocionada de Larine Gurgel.

Os acordos propostos pela indústria de petroquímica estão absolutamente fora da realidade
Como recomeçar se lhe tiram o chão e sua própria história: realidade dessa parte de Maceió

“Com pouca narração, as imagens dos bairros abandonados falam mais do que as palavras sobre a triste realidade. O sal das lágrimas foi causado pela extração do sal-gema, um mineral utilizado como matéria-prima por várias indústrias, entre elas a de papel e celulose e produtos de higiene”, observa, ainda, o press-release da obra, apresentada como TCC, na Universidade Federal de Alagoas (a Ufal) no dia 31 de maio deste ano. “Chico Buarque realizou uma vaquinha virtual para arcar com os custos da produção e mais de 50 pessoas contribuíram. O trabalho foi orientado pela professora Raquel do Monte”, informa Lenilda Lua. 

Retrato de um modelo econômico que ignora nossa própria humanidade: importa o lucro
O diretor do filme, o formando de Jornalismo Chico Buarque

O jovem diretor diz ter retratado “uma tragédia que também é pessoal”. “Sou morador do Pinheiro desde os 14 anos. Por enquanto, minha casa ainda não está na área de risco. Mas os meus vizinhos de ruas próximas tiveram que se mudar. É uma tensão constante. Esse drama atinge a todos nós.”

O trabalho – não era para menos – recebeu nota máxima dos professores. O título foi inspirado nas pichações que se proliferam nos muros e portões das casas. As imagens terrestres são de Chico Buarque, Dayvson Oliveira e Juan Nascimento. As aéreas são de Beatriz Vilela e Jonathan Lins.