Especial

Elinaldo Barros morre vítima do câncer e do esquecimento compulsório

Internado em hospital particular, um de nossos maiores intelectuais deixou-nos na madrugada desta sexta-feira (23); sepultamento do crítico e professor de cinema será às 17h, no cemitério Memorial Parque Maceió, bairro de Benedito Bentes

23 de Julho de 2021, 15:12

Sebage Jorge/ Editor

Elinaldo Barros se foi. Com ele deixa de existir, também, a crítica cinematográfica em nossa cidade, em nosso estado. Que na verdade já não se pratica por essas plagas há muito tempo, desde quando se fecharam para esse crítico fértil e incansável professor (de cinema), não somente as janelas do jornalismo, seja na TV ou no jornal impresso, mas, muito pior, as janelas do amor, da amizade, do convívio social. Como se o tivessem já enterrado em vida, há alguns anos. Além de um mal de parkinson que vinha enfrentando há 13 anos, dá conta o noticiário desta sexta-feira (23) que Elinaldo Barros havia sido diagnosticado, em dezembro passado, com um câncer de próstata e bexiga, causa de sua morte na madrugada desta sexta-feira, em hospital particular da capital. 

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Fui, junto com as colegas jornalistas Gal Monteiro e Lúcia Rocha, um dos primeiros a visitá-lo num asilo de idosos no bairro do Prado, depois que a arquiteta e professora, e também admiradora de Elinaldo, Socorrinho Lamenha, tendo sido avisada por uma aluna, fora ao seu encontro naquela modesta casa de repouso. Nosso amigo nos recebeu com imensa alegria, confidenciando a mim sua tristeza por tal surpreente condição de asilado.

Acometido do mal de parkinson, foi isolado do convívio dos amigos

Em seguida, amigos como o diretor do Cine Arte Pajuçara Marcos Sampaio e o secretário de Comunicação do governo, Ênio Lins, além de um pessoal do cinema, das artes, se juntaram para, de alguma forma, ajudá-lo nessa via-crucis que lhe impuseram. Pouco antes de o internarem num asilo, entrevistei-o para Gazeta em sua casa na Jatiúca. Já demonstrava os sinais do mal de parkinson que lhe acometera, porém, mostrava-se lúcido, generoso e simpático como sempre, apenas a doença infligindo-lhe distúrbios na coordenação motora. Nada demais, inclusive ajudei-o ao ir ao banheiro já que estava sozinho.

Ficamos em grupo visitando-o no asilo e negociando sua volta para casa, uma empreitada que afinal, com muita discussão, conseguimos dar cabo dela. Em fraternal happy hour no Corredor Vera Arruda, comemoramos essa vitória, com Elinaldo então passando a morar num apartamento na Ponta Verde, sendo atendido por curadores.

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Mas não tinha telefone, não tinha computador, apenas uma TV. Para se comunicar com ele, havia intermediários. Não tínhamos ainda informações sobre esse câncer de agora. E se o mal de parkinson provoca tanto distúrbios assim, das vezes que o encontramos esse alegado descontrole mental que o teria levado a internação em asilo me pareceu absolutamente fora da realidade.

Sabendo de artistas como Kathleen Hepburn e Michal J. Fox (apenas para citar gente do meio cinematográfico), que não se isolaram do mundo por conta do mal de parkinson, penso que o mal de Elinaldo Barros fora bem outro.