Cultura

Depois de cirurgia de câncer, arquiteta se descobre aquarelista de sucesso em Londres

Margíria Mércia França tem escritório de Arquitetura em Maceió e, no ano passado, em tratamento pós-cirurgico durante três meses, começou a pintar; galeria em Londres viu as obras na internet e a convidou para exposição

27 de Julho de 2021, 15:08

Sebage Jorge/ Editor

No ano passado, a arquiteta Margíria Mércia França descobriu um câncer de mama. Tendo iniciado tratamento, num período de três meses fez cirurgia e, como terapia ocupacional, começou a pintar aquarelas. Em outubro, realizou a exposição virtual "Por Elas", que pode ser apreciada aqui. A renda obtida com a venda dos quadros, França a doou ao grupo Renascer, que é uma organização não governamental a ajudar mulheres em tratamento do câncer de mama. Mas a exposição rendeu mais. Curadores da mostra internacional “Awakening to Reality” – que aconteceu na Inglaterra, em Londres, organizada pela galeria SKT Spaces – descobriu o trabalho da artista no Instagram e a convidou para integrar o evento. 

A exposição inglesa, encerrada em junho, reuniu obras, segundo a assessoria de Margíria Mércia França, “de 12 artistas emergentes de diversas partes do mundo”. “Margíria é a única brasileira da coletiva”, destaca o informativo enviado à Redação, explicando que a obra escolhida, “Resisting Adversity”, “retrata um cacto florescido em meio ao sertão alagoano”. Detalhe: França é natural de Arapiraca e, como arquiteta, realizou diversos trabalhos para a prefeitura da cidade. Atualmente, mantém escritório em Maceió e aguarda uma oportunidade para expor suas novas aquarelas na capital.

Resistindo à Adversidade: suavidade do cactos na paisagem sertaneja

Acompanhe a entrevista exclusiva com a artista e arquiteta.

Sua exposição numa galeria de Londres parece mesmo uma dessas armações do destino. 

Margíria Mércia França – Realmente parece que o destino armou. Eu não tinha nenhum contato com qualquer galeria, nem em Londres e nem em lugar algum. Apenas postei as minhas aquarelas na internet e o acaso se encarregou de fazer o restante. Nos primeiros contatos achei até que se tratava de algum golpe ou pegadinha.

Quantos anos você tem, há quanto tempo trabalha com arquitetura e quando descobriu sua vocação de artista?

França – Tenho 58 anos e desde 1990 trabalho com Arquitetura e Urbanismo, inicialmente com escritório em Arapiraca e fazendo trabalhos de urbanismo para a prefeitura. Depois mudei o escritório para Maceió e continuei também fazendo projetos arquitetônicos para o público em geral e fazendo trabalhos urbanísticos para o Estado de Alagoas. Junto com a minha sócia Aniete Rocha, expandimos o escritório e nos especializamos em arquitetura para negócios. O público de empresários entendeu rapidamente a nossa proposta e em pouco tempo o escritório de Maceió já estava fazendo projetos comerciais e de franquia para quatro estados no Nordeste, Alagoas, Sergipe, Bahia e Pernambuco. Foi durante o isolamento da pandemia, quando eu recebi o diagnóstico de câncer de mama, que, diante de tantas mudanças e de uma carga grande de emoções, eu recebi de presente três tubos de aquarelas e dois pincéis. Então fui experimentar e imediatamente descobri que tinha habilidades ainda desconhecidas. Hoje nem sei dizer se eu encontrei a aquarela ou a aquarela que me encontrou. Várias pessoas me presentearam com cursos e eu foi notando que muitas técnicas apresentadas pelos cursos eu já estava usando intuitivamente. Na verdade, eu já sabia desenhar. Sou arquiteta desde quando os projetos eram feitos à mão e a minha formação em arquitetura me ajudou muito no equilíbrio de volume e cores nas composições das minhas aquarelas, dentre outras coisas, composição com luz e sombra e combinação de cores. Embora eu nunca tenha usado esse conhecimento de forma consciente, pois sempre me deixei levar pela aquarela intuitivamente. Minha primeira aquarela foi postada nas redes sociais em junho de 2020. Em outubro, durante o Outubro Rosa fiz a minha primeira exposição individual com a renda revertida para o grupo Renascer, que cuida de mulheres com câncer de mama. Em maio de 2021 já estava expondo em Londres em uma coletiva internacional onde eu era a única brasileira.

'Estou começando a experimentar outras técnicas', diz a aquarelista

Você trabalha somente com aquarela ou mexe também com outras ferramentas? Quais as suas referências, com quem aprendeu a pintar? 

França – Faço aquarelas e também arte digital. Faço ainda uma arte híbrida em que uso os meus desenhos em aquarela com finalização ou transformação digital. Estou começando a experimentar outras técnicas, como a acrílica, mas ainda sem muita intimidade e em fase de pesquisa dos materiais que é muito difícil encontrar no mercado local. Sempre fui fã de história da arte e não tem jeito: embora o meu trabalho seja muito intuitivo, típico da arte contemporânea, eu aprecio muita coisa dos clássicos, impressionistas, expressionistas, modernistas e arte em geral. Mas tenho minha preferência por Vincent van Gogh e Claude Monet. Adoro também o trabalho de Os Gêmeos, amo a arte do grafite. Me considero autodidata, mas há muitos anos tive aulas de desenho livre com Pierre Chalita [Maceió, 1930–2010], no Centro de Belas Artes.

A exposição “Por Elas”, que podemos apreciar no Instagram, vem com muitas flores, natureza-morta, algumas paisagens (o mar), outra paisagem urbana... Qual o seu maior interesse? 

França – A maioria são flores. Não tenho preferência pelo resultado. Pinto curtindo o caminho sem a preocupação de onde vou chegar. Tanto que não faço rascunho e nem desenho antes a composição. Eu simplesmente separo as tintas e os pincéis e faço logo a arte definitiva, com todas as emoções e impactos do momento.

As paisagens são mais raras no trabalho de Margíria Mércia França

“Awakening to Reality” (Despertar para a Realidade) é blog espiritual, livro de mantras, taoísmo. Religião e filosofia: foi mesmo uma descoberta esse período em que você esteve doente...

França – “Awakening to Reality” foi o tema da exposição. No período que eu estive doente eu usei a arte como forma de meditação e de conexão com o universo. Foi a forma que eu encontrei de me manter serena diante de uma realidade adversa. Esse foi um momento de reflexões tão complexas que tenho certeza que vou levar pro resto da minha vida.

A galeria SKT Spaces é um projeto de artes com um amplo espaço virtual voltado para temas sustentáveis e proteção à Natureza. Nesse sentido, suas flores são decorativas, mas, também, engajadas. Qual é o seu espaço e seus objetivos nas artes?

França – A aquarela tem a sua própria vontade e uma semelhança muito forte quando comparada a nossa vida. Pois assim como na nossa existência, não temos muito controle dos resultados. A aquarela também nos surpreende para o bem e para o mal. Do mesmo jeito que a vida e o que mais importa é o que fazer com aquela mancha inesperada: que seja considerada um defeito ou um presente e se veio para nos ajudar a complementar a nossa obra, considerando a mancha como ponto de partida... Tudo depende do nosso jeito de encarar. Sempre tive preocupação com sustentabilidade, com proteção à natureza e com responsabilidade social. Isso mesmo antes de pintar. Uma das coisas que me atrai muito na aquarela é o fato de ser solúvel em água e usada sobre papel que é biodegradável e aceita também pigmentos naturais. 

As flores estão presentes em toda obra da artista

A exposição “Awakening to Reality” já foi encerrada, mas seu trabalho continua sendo exibido no site da SKT Spaces. Você está desenvolvendo outros projetos?

França – A minha obra “Resisting Adversity” hoje faz parte do acervo da SKT Spaces. Porém, no endereço da galeria estão expostos e à venda mais três obras minhas. “Burts of Joy” , “Encounter with Wisdom” e “The Trajectory“. 

Como está sua vida agora e como sua arte se desenvolve entre Alagoas e o Reino Unido? Mas você já tem convite de galeria nos Estados Unidos... 

Novos quadros estão à venda no site da galeria SKT Spaces

França – No momento tenho mais três obras sendo expostas em Londres. Eu recebi sim um convite para expor em Nova York, mas se trata de uma exposição que requer grande investimento. Então eu estou conversando com o instituto que está promovendo a exposição, mas, infelizmente, não estou encontrando forma de viabilizá-la

Algo para Maceió?

França – Desejo sim expor em Maceió. Apesar do pouco tempo de atuação como aquarelista, já possuo um acervo enorme, o que facilita a curadoria e montagem de uma exposição. Mas para Maceió eu infelizmente não tenho convite para nenhum evento. Fico aguardando surgir a oportunidade.