Cultura

Jornalista e pesquisador tenta responder porque não somos bem vistos no exterior

Daniel Buarque lançou este mês o volume 'O Brazil é um País sério?', com artigos e críticas sobre nossa imagem internacional; ao site, disse que há esperança de que uma volta de Lula ao poder ajude a nos colocar no rumo

14 de Julho de 2022, 14:44

Sebage Jorge/ Editor

Pesquisador no doutorado de Relações Internacionais da universidade pública King's College London, em Londres (Inglaterra), e também na Universidade de São Paulo (a USP), o jornalista e escritor Daniel Buarque lançou este mês o volume “O Brazil é um País sério? — Ensaios sobre a Imagem internacional, da Euforia à Depressão” (ed. Pioneira, 208 págs., SP). O livro, que reúne material produzido por Buarque entre os anos de 2010 e 2020, custa  R$ 69,90 e pode ser adquirido aqui

“O Brazil é um País sério?” é uma coletânea de ensaios com base em artigos acadêmicos, além de críticas, análises, crônicas, posts de blog, reportagens e entrevistas, a maior parte produzida entre 2015 e 2021. Os textos foram retrabalhados e devidamente atualizados, tentando responder a questões atuais, como a destruição da imagem internacional do país pelo governo de Jair Bolsonaro. 

Pesquisador paulista discute a imagem do Brasil no exterior

Ao Alagoas Boreal, por e-mail, Daniel Buarque afirmou que “atualmente há uma certa esperança de que uma possível volta de Lula de fato ajude a colocar o Brasil de volta em um rumo mais acertado”, mas reconheceu que "qualquer novo governo brasileiro que mudar o discurso e a prática em relação à Amazônia, por exemplo”, vai melhorar a imagem do país aos olhos do mundo.

Em 2013 Buarque, publicou “Brazil, um País do Presente” (Alameda Editorial). E escreveu outros volumes sobre gastronomia, a exemplo de “Comendo Londres — Um Guia para amar a pior Comida do Mundo” (ed. Livros de Comida, 2017) e “Comendo a grande Maçã — Uma Viagem gastronômica por Nova York” (ed. Memória Visual, 2011).

Acompanhe a entrevista.

Esse Brasil eufórico que parecia estar crescendo e se desenvolvendo, com mais justiça social, era uma construção da esquerda, que pela primeira vez chegou ao poder. Isso poderá voltar a acontecer, independentemente de Lula ganhar a eleição, ou não tem jeito mesmo, é Lula ou barbárie?

Daniel Buarque Um conjunto de fatores facilitaram aquele momento de empolgação global com o Brasil, que de fato não existe hoje em dia. A percepção externa não associa tão diretamente a ascensão do Brasil no mundo a governos de esquerda. Pelo contrário, costuma-se apontar muito tradicionalmente para o governo de Fernando Henrique Cardoso (ou antes, o Plano Real), como um dos momentos em que o Brasil começou a dar um passo importante para melhorar seu prestígio internacional. O governo de Lula sem dúvida foi fundamental no processo, muito por conta de ações sociais, mas em grande medida por dar continuidade a políticas econômicas que haviam ajudado a estabilizar o Brasil. Além disso, é preciso indicar que o olhar externo também reconhece a importância do contexto global, mais aberto ao multilateralismo, e com o boom das commodities, e do contexto nacional, com a descoberta do pré-sal, como fundamentais para gerar a euforia que se viu com o Brasil naquele período. Atualmente há uma certa esperança de que uma possível volta de Lula de fato ajude a colocar o Brasil de volta em um rumo mais acertado, que volte a impulsionar o status do país no mundo. Mas é sabido que qualquer governo que assumir o país em 2023 vai enfrentar desafios gigantescos por conta das dificuldades impostas pelo contexto atual. Há uma guerra na Europa, fortes tensões geopolíticas no mundo, uma crise de produção e distribuição de alimentos, risco de recessão global, além de uma bomba fiscal armada para o próximo governo, com risco de aumento da inflação. O contexto é o oposto do que ajudou a promover o Brasil, e não vai ser fácil projetar o país de forma positiva novamente. Mas não é impossível.

'Desprestígio atual está associado à péssima imagem de Bolsonaro'

Muito do desprestígio atual do país está diretamente associado à péssima imagem de Jair Bolsonaro no mundo. Uma mudança de governo, de postura do país perante o mundo e de discurso, pode ajudar o Brasil a melhorar a percepção que tem no exterior. E isso vale para qualquer candidato de oposição ao governo atual, e não apenas para Lula. Qualquer novo governo brasileiro que mudar o discurso e a prática em relação à Amazônia, por exemplo, vai melhorar imediatamente alguns aspectos da imagem do Brasil. Uma postura dura contra o desmatamento pode ajudar o Brasil a chegar mais perto da liderança ambiental que já teve no passado, e este é um primeiro passo importante. Uma boa imagem na questão ambiental vai melhorar a percepção dos mercados sobre os produtos brasileiros, vai facilitar acordos internacionais, vai ajudar na promoção do país. O contexto é duro, e a realidade brasileira vai demorar a reconstruir um perfil que possa levar a algo parecido com o boom do passado, mas qualquer outro governo pode ajudar o país a deixar de lado o risco de ser visto como um pária internacional. E isso já é muita coisa. 

O volume foi lançado este mês em todo o país

A política externa durante o (des)governo Bolsonaro, verdade seja dita, virou uma palhaçada. Mas a Europa também, alimentando a guerra na Ucrânia, por ex., não é afinal um bando de galhofeiros criminosos?

Buarque — O mundo realmente passa por uma reestruturação, o que afeta a reputação de muitos países. Nesse contexto, entretanto, acho complicado atribuir à Europa a responsabilidade por “alimentar a guerra”, uma invasão não provocada decidida por Putin de uma nação soberana que tem seus próprios interesses e está dividida entre o Ocidente e sua história ao lado da Rússia. O Brasil de fato não é o único país que vem sofrendo com crises em sua imagem, e muito disso pode estar associado a uma onda de governos populistas e autocratas pelo mundo. Os Estados Unidos veem ameaçada a sua imagem de ícone da democracia, com a polarização interna, a tentativa de golpe de Donald Trump e a dificuldade de governar de Biden. O Reino Unido tem um governo cada vez mais questionado em sua legitimidade, e ainda enfrenta problemas por conta do Brexit. A França e a Alemanha veem crescer movimentos de extrema-direita. Enquanto isso, a Rússia tem um governo autocrata que destrói a imagem do país com uma guerra sem razão, e a China, que também é uma ditadura, fala em pragmatismo, mas evita criticar a invasão da Ucrânia por conta dos seus interesses geopolíticos. 

Sem falar nos EUA, que é um país de rapina.

Buarque Os Estados Unidos vivem sua própria crise doméstica e de imagem. Eles veem a imagem de nação defensora da democracia ruir tanto pela violenta disputa política interna quanto pela má reputação deixada pelas invasões do Afeganistão e do Iraque. Isso dificulta a manutenção da sua hegemonia global. E dificulta até mesmo no seu papel de líder do continente, como se pôde ver recentemente na esvaziada Cúpula das Américas. Ainda é a nação mais poderosa do mundo, mas enfrenta grandes dificuldades e vê rivais como Rússia e China acumularem poder e riqueza.

No site do autor, artigos e informações sobre seus livros 

A impressão é que o mundo como conhecemos está a ruir, a desmoronar. Quem sabe o Brasil, caso salvemos a Amazônia e como temos uma personalidade otimista, talvez ainda sejamos a salvação do planeta. Mas como isso poderia acontecer?

Buarque — Sim, o mundo está passando por uma transformação, e isso cria dificuldades para todos os países. Mas também cria oportunidades, e o Brasil pode se aproveitar delas, caso adote um perfil internacional mais empenhado na projeção do país. Falar em salvação do planeta por uma única nação pode ser exagero, já que é necessário ação coordenada para proteger não somente o ambiente, mas também evitar um conflito militar de maior escala. De fato, entretanto, a Amazônia é uma dessas oportunidades do mundo em transformação, e pode ajudar a melhorar a imagem do Brasil. Como expliquei antes, uma mudança no perfil das políticas ambientais, com um maior empenho na proteção da floresta e de outros biomas, pode ajudar o Brasil a se projetar como uma liderança no setor, melhorando a reputação do país. O caminho é o Brasil deixar de lado o rumo de “pária” internacional que o governo de Bolsonaro chegou a proclamar de forma orgulhosa, voltar a um caminho construtivo e a buscar mais uma vez colocar o país num lugar de destaque no mundo. Não vai ser fácil, mas não é impossível.